O manejo da transferência entre Freud e Lacan: operadores clínicos e a ética do desejo
O nascimento da psicanálise é marcado pelo caso de Anna O., interrompido por Josef Breuer após uma gravidez histérica endereçada ao médico. Ernest Jones (1989) transcreveu o episódio:
"Parece que Breuer desenvolvera o que hoje se chamaria de uma forte contratransferência [...] A paciente [...] encontrava-se agora em dores de um parto histérico (pseudociese), culminação lógica de uma gravidez fantasmática que vinha se desenvolvendo invisivelmente em resposta ao trabalho de Breuer (Jones, 1989, p. 232)."
Se para Breuer isso representou um limite, para Freud tornou-se o ponto de partida para a investigação da transferência.
A Transferência em Freud e Lacan
Na obra freudiana, a transferência é inicialmente compreendida como o deslocamento de investimentos afetivos inconscientes para a figura do médico, operando como obstáculo e motor do tratamento. Freud (1911) afirma:
"[...] o sentimento de simpatia para com o médico pode muito bem se originar de um processo de transferência, pelo qual um investimento afetivo do doente foi transposto de alguém que lhe é importante para a pessoa do médico" (Freud, 1911).
Lacan (1964) retoma essa tensão sob uma nova perspectiva, deslocando-a para a lógica do saber e da linguagem através da noção de sujeito suposto saber. O analisante atribui ao analista um saber sobre seu próprio inconsciente. No Seminário 11, Lacan (1964) questiona:
"O que é que se passa quando o sujeito começa a falar com o analista? - ao analista, quer dizer, ao sujeito suposto saber, mas do qual é certo que ele não sabe nada ainda. É a ele que é oferecido algo que vai primeiro, necessariamente, se formar como pedido. [...]" (Lacan, 1964, p.254).
Operadores Clínicos e o Desejo do Analista
Antonio Quinet (1991), em As 4+1 Condições da Análise, apresenta os operadores necessários ao percurso analítico: as entrevistas preliminares, a retificação subjetiva, a localização do sintoma, a introdução à transferência e o desejo do analista. Para ele:
"O estabelecimento da transferência é necessário para que uma análise se inicie [...] A transferência não é, portanto, uma função do analista, mas do analisante. A função do analista é saber utilizá-la" (Quinet, 1991, p. 26).
Bruce Fink (1997/2018) aprofunda a problemática apontando que o analista também é convocado a ocupar o lugar do objeto a — resto que causa o desejo. Quando a transferência revela sua face de resistência, o desejo do analista impede que ela se cristalize em sugestão:
"O analista não é “autêntico”, não comunica seus sentimentos e reações mais profundos ao paciente [...] O analista deve manter uma postura desejante – desejo de que o paciente fale, sonhe, fantasie, faça associações e interprete [...]" (Fink, 1997/2018, p.16).
Referências
- Fink, B. (2018). Introdução clínica à psicanálise lacaniana.
- Freud, S. (1911-1913). Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (o caso Schreber).
- Jones, E. (1989). A vida e a obra de Sigmund Freud: vol. 1.
- Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
- Quinet, A. (1991). As 4 + 1 condições da análise.